O que a Internet sabe sobre você?

Eu uso a Internet há muitos anos. Meu primeiro site está no ar desde 1998. Então, eu sei que a Internet sabe muito a meu respeito. Se eu fizer um “Google” do meu nome como solteira ou como casada, virão todo tipo de informações: meu endereço e telefone celular incluídos! O que me deixa mais feliz é ver poucas fotos. Isso acontece principalmente por algumas decisões que eu tomei nas redes: não permito marcações e peço que os amigos sejam discretos na hora de publicar as fotos. Tem dado certo, mas não é 100% garantido.

Até aí, tudo bem. Eu sempre achei que também não me incomodava com o fato das propagandas on-line refletirem meus gostos e me oferecerem produtos e serviços que eu compro, procuro ou que gostaria de conhecer. Até o dia que veio essa propaganda da foto acima! Uma propaganda de uma camiseta onde você lê “Apenas uma garota brasileira em um mundo alemão“. SUSTO! Não só a propaganda usou informações pessoais, como deu a impressão de que essa estampa tinha sido criada pra mim! Não sou a única “garota brasileira num mundo alemão”, com certeza, só que essa propaganda me mostrou o poder que nós damos para empresas saberem TUDO sobre nós e como isso pode ser usado para uma venda. Não, eu não comprei a camiseta! Mas levei a questão a um encontro nerd que eu fui em Bruxelas, onde estávamos discutindo presença digital e privacidade on-line.

Quando você começa a usar qualquer serviço de rede social, aceita os termos. E, nesses termos, geralmente aceitamos que eles usem nossos dados “demográficos” para estatísticas ou para terceiros. O Google diz que não vende para terceiros, mas eles usam esses dados para direcionar suas propagandas e por isso eles tão poderosos e bem-sucedidos. Eles têm essa enorme vantagem em relação a outras empresas de mídia on-line: eles sabem quem somos e o que procuramos. Mas empresas como Facebook/Instagram também sabem muito de nós: quem são nossos amigos, onde vamos, pra onde viajamos, quanto tempos ficamos…

O que incomoda mais nessa história toda? O fato de oferecerem pra mim uma camiseta engraçadinha que mostra alguns aspectos pessoais da minha vida? Já falei que gosto quando oferecem pra mim um ticket para um show da minha banda favorita ou sou apresentada a um serviço interessante que pode ser útil no meu dia-a-dia. Não é isso que incomoda. O que incomoda é saber que todos esses dados estão à disposição de qualquer um que possa pagar por eles.

No tal encontro foi levantada uma questão bem mais séria! Digamos que você tem um blog no qual você conta sobre a sua vida. Em um determinado momento você pode falar sobre um episódio de depressão ou sobre doenças de familiares que possam ser herdadas (câncer, doenças degenerativas em geral…). Essa informação pode ser usada por empresas de seguro-saúde para que elas não aceitem você como cliente. Uma empresa pode decidir não contratar aquela profissional “com tendências depressivas”, mesmo que essa doença esteja sob controle ou tenha sido um episódio da sua vida que nem era a doença e sim exatamente isso: um episódio. Já pensou sobre isso?

Cada vez mais eu penso que escolas e pais deveriam conversar e informar mais sobre a privacidade na rede a essa geração de nativos digitais que acha natural passar o dia com o smartphone em mãos narrando todos os seus passos. E a comunidade como um todo deve sim discutir onde todos os nossos dados vão parar, como eles são usados ou vendidos e quem tem responsabilidade em caso de vazamentos. O caso mais recente, do site Ashley Madison, que “ajuda” pessoas casadas a encontrarem affairs na rede, exemplifica bem essa questão. O site foi hackeado, dados foram roubados e a publicação ou aparecimento dessas informações podem ter efeitos devastadores na vida dos usuários. Não entro aqui no mérito de eles estarem fazendo algo “imoral”, cada um sabe de si. Mas é assustador saber que uma empresa desse porte não encriptografava as informações de seus usuários e que essas informações estão nas mãos de “não se sabe quem”.

Pessoas reais no Facebook

Um dos participantes trouxe à tona uma outra questão: a recente decisão do Facebook de deletar contas de usuários com nomes falsos ou apelidos na rede. Ele considera que isso ajuda a tornar a Internet menos “terra de ninguém” e que haters e bullies precisam ser identificados. O mesmo vale para vendedores que não entregam mercadorias, fraudadores em geral…hmmm… e agora? Queremos privacidade para nós e queremos nos defender e saber quem são os outros. Onde fica o “caminho do meio” e a resposta?

Ninguém sabe.

Fica aqui apenas uma sugestão: se informe e entenda como as informações que você coloca na rede podem ser usadas. E vamos torcer para que nossos dados não sejam usados contra nós, sem que saibamos.